Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)*

*texto com pequenos spoilers, então se não viu o filme já está avisado 🙂

Os Pecados

É delicado falar de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge se não for elogiá-lo. Os cegos defensores fervorosos do filme e do diretor logo atacam se se atrever a fazê-lo. Terminada a sessão do terceiro filme e o que encerra uma jornada do herói, saí do cinema mais decepcionado do que satisfeito.

Decerto, alguns (poucos, porém significativos) momentos do longa são satisfatórios. O ritmo pontua um defeito por oscilar entre o empolgante e irritante. Tudo é quebrado rapidamente e repentinamente e a montagem que sempre foi característica forte dos filmes anteriores apresentando um poder gigantesco no segundo filme principalmente, aqui é cansativa, com excessos de flashbacks de cenas tão óbvias que além de tudo acompanham o diálogo redundante dos personagens.

Aliás, o roteiro faz questão de jogar ali um momento Sherlock Holmes em que tudo é explicadinho numa cena no final. Precisava mesmo de explicação pra qualquer coisa? Nolan acha que sim e faz de um tudo para não deixar ninguém com a sensação de estar perdido; sensação inicial inevitável pelo tanto de caras novas adicionadas.

Os erros do roteiro vão além e subestimam demais a inteligência do espectador. Ingênuo aquele que abraça a reviravolta ridícula da personagem de Marion Cotillard, que apresenta certamente o maior pecado de todos os filmes. O triste é que a personagem de Cotillard torna-se muito importante pra trama quando poderia simplesmente não existir nesse filme. Francamente, dá vergonha a sua atuação, prejudicada demais pelo mau desenvolvimento de sua personagem no roteiro. A personagem de Cotillard é tão incopetente que atrapalha até o vilão Bane pelo excesso de vínculo sentimentalista.

Nolan erra por excessos. Exagera com um melodrama barato já tão bem apresentado em Batman Begins. Exagera nos personagens novos e dá pouco espaço aos já existentes. Afinal, por que não explorar mais os coadjuvantes veteranos? Erra em querer voltar tanto ao inicio pra justificar um fim. Um erro tão bobo de roteiro que tantas trilogias já cometeram. Chega a ser engraçado que para um filme que se declara ser o último acabe criando tantas novas tramas e relações. Relações pouco interessantes, por sinal.

Querer explicar demais foi adotado no antecessor do cineasta, A Origem e o diretor tropeça nos mesmos erros. O problema é que pouca gente quer enxergar isso. Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge já era visto com uma obra grandiosa a altura de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Endeusar Christopher Nolan parece estar como novo mandamento do cinéfilo cult moderno. Esse endeusamento cegou completamente grande parte de tietes do diretor. Não dá para fechar os olhos à tanta pisada na bola. Grandes furadas no roteiro e seu alto grau de previsibilidade.

Não gostaria de comentar sobre qualquer aspecto sonoro pois peguei uma sala com sistema de som terrível então fico devendo falar sobre até rever. É bom deixar apenas uma opinão sobre a trilha que cabe no próximo tópico, mas fica perdida numa trama empolga aqui e ali e não chega ao que foi a trilha sufocante e tensa de O Cavaleiro das Trevas.

As Virtudes

Claro que nem só pecados compõem o filme.  Mesmo que a decepção insista, o filme encerra a trilogia de cabeça erguida. Ok, tanto sofrimento para Bruce Wayne é desnecessário a essa altura do campeonato. Acontece e temos que aturar essa langa estadia do personagem na prisão enquanto Bane fica livre pra aprontar seus atos terroristas. Bane por sinal numa retratação perfeita de Tom Hardy. A máscara do personagem não limita sua atuação, o trabalho na voz do ator é fantástico, além de um olhar tão perturbador que Hardy faz tão bem. As motivações sentimentais do vilão expostas no final o restringem mas não o comprometem tanto.

No meio de todo esse cenário a Mulher-Gato de Anne Hathaway em nada decepciona. Ótima! Bem verdade que não supera a de Michelle Pfeiffer, mas para que insistir nessa questão se os Batmans do Burton são tão diferentes? Só é preciso reconhecer o quanto é ótimo vê-la quando divide cena com o Batman, até os diálogos de humor piegas funcionam bem nessas horas. Michael Caine aparece tão pouco e sempre chorando, uma boa atuação, porém. Nolan não deixou muito espaço para Caine, Oldman ou Freeman. Este último completamente ofuscado. E Oldman ofuscado pelo personagem novo do Joseph Gordon-Levitt.

O momento do caos em Gotham é onde mais se sente falta do Coringa ou de algumas satisfação de para onde o personagem foi. Se Nolan pensasse em voltar com o personagem com outro ator ofenderia o ego de muitos de seus fãs, aqueles fãs céticos diante do potencial do Coringa de Heath Leadger quando o ator foi anunciado.

Os julgamentos ordenados pelo Dr. Crane, o Espantalho (Cillian Murphy), me incomodaram no início, mas até compreendi depois a boa intenção de Nolan. Do momento que o caos inicia até a volta absurda de Bruce o filme é demais. Grandes cenas de efeitos especiais (excelentes, realistas e bem executadas como sempre) não vão fazer deixar de lado grandes bobagens que Christopher Nolan e o irmão Jonathan Nolan fizeram questão de não deixar de lado.

Entre seus tantos problemas, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge encontra ainda força e encerra uma trilogia com dignidade. A cena final arrepia mais por motivos de encerrar, enfim, uma tão bem sucedida jornada do herói das trevas. Queria sair do cinema tão empolgado, chocado e feliz quanto saí da sessão de Batman – O Cavaleiro das Trevas onde minha única decepção foi a morte de Heath Leadger depois de uma figura tão brilhantemente construída. Muita coisa poderia ser diferente, mas se tanta gente se satisfez com pouco, eu recomendo um revisão mais parcial. IMDb

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